Author: Carlota Rocha e Cunha

  • Nao deveria ser tao dificil encontrar ajuda — conversa com Carolina Santos

    Comunidade — maos a trabalhar em conjunto

    Carolina Santos criou um mapeamento colaborativo de recursos de apoio psicologico acessivel em Portugal. Entrevista por PsiHubPT · 1 de Junho de 2026 · 8 min de leitura

    O acesso a apoio psicologico em Portugal continua a ser, para muitas pessoas, um processo moroso, fragmentado e frustrado por barreiras que vao alem do custo. A lingua, a localizacao, o desconhecimento dos recursos, a falta de articulacao entre servicos — tudo contribui para que quem precisa de ajuda nem sempre a consiga encontrar.

    Foi para responder a esta lacuna que Carolina Santos criou um mapeamento colaborativo de servicos e recursos de apoio psicologico, social e comunitario em Portugal, com foco nas areas metropolitanas de Lisboa e do Porto e em opcoes online.

    Entrevista

    O que te levou a criar este mapeamento?

    Comecou de forma pessoal. Entrei na universidade em 2019; pouco depois veio o COVID. Comecei a ter sessoes de psicologia que rapidamente chegaram aos 200€ por mes. Depois a minha gata ficou doente e deixei as sessoes para pagar a veterinaria. Mais tarde, a trabalhar em contexto escolar, vi o mesmo do outro lado: os recursos existiam, mas ninguem sabia onde.

    Nao deveria ser tao dificil encontrar ajuda. Esta base de dados e uma tentativa de responder a uma falha que eu e tantos outros identificamos.

    Que tipo de recursos estas a reunir e como decides o que entra?

    O criterio central e a acessibilidade, entendida de forma ampla. Nao e so preco, embora o meu ponto de corte sejam cerca de 35 euros. Incluo opcoes em ingles, porque muita gente em Portugal nao fala portugues confortavelmente para temas complexos. Incluo tambem apoio social, ensino de portugues para estrangeiros, servicos de proximidade — porque acredito que estes apoios devem existir em rede.

    Qual tem sido a resposta da comunidade?

    E cedo, porque a divulgacao formal ainda nao aconteceu. Mas noto que, mesmo com um formulario anonimo, as pessoas preferem contactar-me diretamente. Confirma que a base de dados nao pode ser apenas uma lista fria.

    Quais sao os maiores obstaculos no acesso a apoio psicologico acessivel?

    O custo e o mais obvio — uma consulta privada pode representar 5 a 8% do salario minimo. Mas ha obstaculos menos falados: a lingua e a cultura, e a fragmentacao dos servicos, em que cada apoio existe no seu proprio mundo, sem comunicar com os outros.

    O que aprendeste sobre construir algo colaborativo numa area fragmentada?

    A intencao nao chega. Se preencher um formulario nao for conveniente, as pessoas nao o fazem — nao por desinteresse, mas porque o custo de contribuir e maior do que o beneficio imediato.

    Para que a contribuicao aconteca, as pessoas precisam de ver que ela produz alguma coisa — que estamos a construir algo que cresce e que e visivel.

    Carolina Santos

    O que precisaria de mudar para que iniciativas como esta deixassem de ser necessarias?

    A saude mental nao existe num vacuo — e influenciada por fatores sociais, politicos e economicos. A nivel institucional e necessario investimento na integracao de servicos; a nivel politico, reconhecer que precariedade, habitacao, migracao e isolamento fazem parte da equacao.

    Acede ao mapeamento

    O mapeamento pode ser consultado e expandido com a tua contribuicao aqui.

    Carolina Santos — Psicologa · Student Wellbeing Trainee na 42 Lisboa. Formada pela Universidade de Coimbra, investigou neurodiversidade, identidade de genero diversa e bem-estar subjetivo, e estudou UX Research e UX/UI Design.

  • Linhas Editoriais — o que publicamos e como funciona

    Pessoa a escrever a secretaria

    A seccao Artigos e um espaco aberto a comunidade. Aqui explicamos quem pode propor, que tipos de texto aceitamos e como funciona o processo. Por Equipa PsiHubPT · 23 de Maio de 2026 · 5 min de leitura

    A seccao Artigos do PsiHubPT da visibilidade a perspetivas, experiencias e analises que nao cabem no formato FAQ — textos com voz propria, assinados por quem vive e trabalha na area. O que os une e o compromisso com a honestidade, a ausencia de agenda comercial e a relevancia para quem constroi uma carreira em psicologia.

    Quem pode propor um texto

    Qualquer pessoa com ligacao a psicologia em Portugal: psicologas/os em qualquer fase (incluindo o APJ), estudantes, investigadoras/es e profissionais de areas afins. Nao e necessario ter experiencia de escrita nem estatuto academico.

    Que tipo de textos aceitamos

    • Opiniao — Posicionamento fundamentado sobre temas profissionais, laborais, deontologicos ou de politica de saude.
    • Guias e explicacoes — Textos praticos sobre processos, direitos ou recursos.
    • Testemunhos — Relatos de experiencia pessoal ou profissional.
    • Analise — Leitura critica de legislacao, regulamentacao ou tendencias.
    • Revisoes tematicas — Sinteses acessiveis sobre temas relevantes para a pratica ou a carreira.

    Extensao

    Nao ha limite minimo nem maximo. A titulo orientador, textos entre 500 e 1500 palavras tendem a funcionar melhor.

    Autoria e identificacao

    Os textos sao sempre associados a uma identificacao minima. Em testemunhos sensiveis e possivel publicar com pseudonimo, mediante identificacao minima (nao publicada) a equipa. O anonimato completo nao e aceite.

    Direitos

    O texto e sempre da autora ou do autor. O PsiHubPT nao adquire direitos sobre o conteudo publicado e a autoria pode republicar livremente.

    Processo editorial

    Para submeter, envia para psihubpt@gmail.com. Pode haver revisao editorial (clareza, estrutura), sempre partilhada antes da publicacao. O PsiHubPT reserva o direito de recusar propostas sem obrigacao de justificacao.

    O que nao publicamos

    • Conteudo publicitario ou promocional de servicos, formacoes ou produtos proprios.
    • Conteudo clinico prescritivo dirigido ao publico geral.
    • Conteudo de bem-estar generico sem relacao com o proposito do PsiHubPT.
    • Textos sem relacao com a psicologia enquanto profissao, formacao ou campo de intervencao em Portugal.
    • Posicionamento partidario.
    • Conteudo que entre em conflito com os direitos humanos fundamentais.

    Textos com posicionamento politico sao aceites, desde que fundamentados e dentro dos limites acima.

    Seguranca de quem escreve

    Antes de nomear entidades ou pessoas: aconselhamos cautela na identificacao direta de nomes, que pode expor-te a consequencias que nao valem o risco. Se tiveres duvidas sobre como abordar um tema sensivel, fala connosco antes de escrever: psihubpt@gmail.com

  • O que o Pacote Laboral muda na nossa profissao

    O que esta dentro do Pacote Laboral — ilustracao PsiHubPT
    Ilustracao PsiHubPT, 2026.

    O que pode mudar na lei laboral e como essas mudancas se irao refletir nos vinculos, condicoes de trabalho e direitos dos/das atuais e futuros/as psicologos/as. Por Equipa PsiHubPT · 22 Maio 2026 · 10 min de leitura

    Embora nem sempre tenha sido assim, a atual insercao no mercado de trabalho em Psicologia em Portugal revela-se um processo altamente exigente. Apos anos de formacao academica, a transicao para a pratica autonoma exige a conclusao do Ano Profissional Junior (APJ) — uma etapa formativa, mas frequentemente pautada por vulnerabilidade contratual: remuneracoes nao padronizadas, predominancia de prestacao de servicos e pouca protecao institucional.

    Para muitos profissionais, o primeiro contacto com o mercado de trabalho e marcado por uma elevada instabilidade, que se prolonga nos primeiros anos de carreira. E perante este panorama que importa analisar de forma tecnica as recentes propostas de alteracao legislativa.

    Neste contexto, o atual Governo entregou na Assembleia da Republica uma proposta de alteracao ao Codigo do Trabalho, comummente designada por “Pacote Laboral”. Dado o perfil dos vinculos laborais prevalecentes na nossa area, estas mudancas cruzam-se diretamente com a realidade de muitos psicologos.

    Estado do processo. A Proposta de Lei n.º 77/XVII/1.ª foi submetida a Assembleia da Republica a 18 de maio de 2026, na sequencia do anteprojeto “Trabalho XXI” (julho de 2025), aguardando discussao e votacao.

    O que esta em cima da mesa

    O Pacote Laboral propoe alteracoes estruturais em varios pilares das relacoes laborais, com particular incidencia nos contratos, horarios e negociacao coletiva. Destacam-se cinco pontos centrais:

    1. Alteracoes a reintegracao laboral. Em caso de despedimento considerado ilicito em tribunal, o empregador pode optar pelo pagamento de uma indemnizacao em vez da reintegracao obrigatoria do trabalhador.
    2. Revisao da presuncao de dependencia economica. Para o reconhecimento de contrato de trabalho em situacoes de prestacao de servicos (os falsos recibos verdes), o limiar de dependencia economica perante uma unica entidade sobe de 50% para 80%.
    3. Alargamento do banco de horas individual. Permite acrescimos ate duas horas por dia (limites de 10h semanais e 150h anuais), sem pagamento imediato de trabalho suplementar.
    4. Flexibilizacao de horarios e parentalidade. Novas regras flexibilizam trabalho noturno ou em fins de semana para trabalhadores com filhos ate 12 anos.
    5. Dinamicas de contratacao coletiva. Facilita-se a caducidade de contratos coletivos e permitem-se novas formas de suspensao em situacoes de “crise empresarial”.

    Cenarios praticos: o que muda para cada realidade

    Para materializar o que estas propostas representam na pratica da Psicologia, apresentam-se cinco cenarios ilustrativos.

    Beatriz, 23 anos — Estudante universitaria

    Esta prestes a terminar o curso e a candidatar-se ao estagio. As alteracoes as regras dos contratos a prazo vao influenciar no futuro a forma como sera integrada numa entidade. O alargamento dos contratos a termo pode fazer com que a passagem para um contrato efetivo aconteca mais tarde do que acontece hoje.

    Tomas, 26 anos — Psicologo Junior

    Faz o estagio numa clinica privada, muitas vezes em prestacao de servicos, podendo ter de assumir despesas proprias como a supervisao. As alteracoes propostas nao trazem solucoes especificas para melhorar estas condicoes, e as mudancas na negociacao coletiva podem dificultar acordos que protejam os psicologos juniores.

    Rui, 34 anos — Psicologo a recibos verdes

    Presta servicos numa plataforma de saude online com horarios e software definidos pela empresa. Por faturar mais de 50% a mesma entidade, teria margem para requerer reconhecimento de contrato de trabalho. Com o Pacote Laboral, o limiar sobe para 80%, tornando a presuncao substancialmente mais dificil de provar.

    Sofia, 31 anos — Contrato a prazo, hospital privado

    A proposta preve o alargamento da duracao maxima dos contratos a termo certo (de dois para tres anos) e a termo incerto (de tres para quatro anos). Na pratica, prolonga-se o tempo durante o qual um psicologo pode ser mantido num vinculo nao permanente.

    Ines, 41 anos — Setor publico

    Embora as propostas incidam sobre o Codigo do Trabalho, historicamente a Lei Geral de Trabalho em Funcoes Publicas tende a alinhar-se com as alteracoes do setor privado. Profissionais do setor publico devem acompanhar estas revisoes com atencao.

    Literacia laboral: direitos de participacao e greve

    Sindicalizacao. O direito a greve e constitucional (Artigo 57.º) e universal — nao exige filiacao sindical.

    Recibos verdes. Quem se encontra em dependencia economica legalmente reconhecida partilha das protecoes contra retaliacoes.

    Consequencias praticas. A adesao a greve suspende o contrato nesse dia, mas a ausencia e justificada. A lei proibe expressamente a contratacao de substitutos pontuais ou sancoes discriminatorias (Art.º 540.º).

    O futuro da Psicologia exige literacia e acao coletiva

    A discussao em torno da legislacao laboral transcende simpatias politicas — trata-se do enquadramento legal que regula a nossa pratica clinica e a nossa subsistencia. Mercados com condicoes mais flexiveis e estaveis (como os paises nordicos) partilham elevadas taxas de literacia e organizacao profissional.

    Em Portugal, a taxa de sindicalizacao situa-se abaixo dos 10%. O Sindicato Nacional dos Psicologos (SNP) emitiu posicao oficial sobre estas propostas e promove acoes de mobilizacao no setor.

    Convocatoria a acao coletiva. O SNP apela a todos os trabalhadores do setor, independentemente do vinculo e de serem sindicalizados, a aderirem a Greve Geral no dia 3 de junho. Le a posicao oficial do SNP.

    Para saber mais

    Ferramenta interativa: NotebookLM criado pelo PsiHubPT com a Proposta de Lei, o Codigo do Trabalho, a Constituicao e comunicados do SNP indexados. Abrir Notebook →